Em minha opinião o “problema” de ser
médico se origina dele ser em nossa sociedade um ente dotado de poder, este
poder traz diversos prejuízos pessoais a quem é médico. É complicado saber o quanto se dedicar e entender os limites da prática médica, estes conflitos trazem prejuízos inclusive a saúde dos fazedores de saúde.
Todo médico é responsável por vidas, e
a sua vida pessoal fica dividida, como irá se divertir se do
assunto estudado vão depender algumas vidas, como podemos ter vida social
enquanto muitas pessoas estão numa emergência sem médicos suficientes? Este
questionamento repercute desde os primeiros dias na academia, e vai além do
médico, é a responsabilidade social e o cuidado que será prestado, afinal as
pessoas são o objeto do trabalho em saúde e têm todo o direito de dizer como querem
ser cuidadas. O problema das pessoas julgarem a dedicação do médico é que
muitas vezes elas não entendem o que alguns estudantes e médicos também deveriam
entender: médicos são pessoas que precisam ter uma vida saudável, o que inclui
diversão, para poderem desempenhar corretamente seu papel na sociedade, caso
deixem o autocuidado de lado, também irão prejudicar o seu
trabalho.
Além do estresse da dedicação com
outros e consigo mesmo, também sofrem deste poder cada vez que são privados
de usá-lo, existem limites que salvam vidas e muitas vezes também tiram vidas. O
primeiro limite é o de direito, que é necessário para balizar condutas e
responsabilidades, mas na ânsia de ajudar às vezes podemos esquecer o bem maior
do direito e sermos favoráveis ao risco, algumas vezes causando danos no lugar de
ajudar. O segundo limite é o do saber fazer, nenhum médico é capaz de fazer/saber
tudo, precisamos de outros profissionais, principalmente quando generalistas. O terceiro limite é o corpo do outro, até onde a prática médica
vai ser realmente benéfica ao interferir na vida das pessoas, até onde se pode
agir na vida das pessoas para seu próprio bem. O quarto limite é físico, faltam
médicos e quando não faltam não adianta se não existir a estrutura para prestar
o serviço ou sem que as pessoas possam ter acesso ao cuidado. O quinto limite são
as vicissitudes da realidade, nem o total conhecimento e a melhor estrutura
serão suficientes para cessar o sofrimento, existem muitas pessoas em situações
desumanas que privam as pessoas do necessário para uma vida saudável, e inúmeras
possibilidades de agravos físicos e mentais. Diante de tantas limitações,
aquele ente poderoso, o médico, vai sofrer ao não poder ajudar ser não for
capaz de entender a grande trama social à qual pertence.
Este poder ainda se configura em
opressão, tanto saber sobre a vida pode levar o médico a ser colocado num
pedestal em seu ambiente de trabalho formando uma hierarquia que impede a
atuação integrada com outros profissionais.
Ainda se pode falar do risco de
adoecimento por ser um profissional da saúde, mas acredito que este seja o
menor dos males, quando lembramos que o médico também pode se tornar insensível
diante de tantos flagelos e de tanto descuido com a vida.