segunda-feira, 20 de abril de 2015

Desilusão em ser médico: prejuízos pessoais



Em minha opinião o “problema” de ser médico se origina dele ser em nossa sociedade um ente dotado de poder, este poder traz diversos prejuízos pessoais a quem é médico. É complicado saber o quanto se dedicar e entender os limites da prática médica, estes conflitos trazem prejuízos inclusive a saúde dos fazedores de saúde.
Todo médico é responsável por vidas, e a sua vida pessoal fica dividida, como irá se divertir se do assunto estudado vão depender algumas vidas, como podemos ter vida social enquanto muitas pessoas estão numa emergência sem médicos suficientes? Este questionamento repercute desde os primeiros dias na academia, e vai além do médico, é a responsabilidade social e o cuidado que será prestado, afinal as pessoas são o objeto do trabalho em saúde e têm todo o direito de dizer como querem ser cuidadas. O problema das pessoas julgarem a dedicação do médico é que muitas vezes elas não entendem o que alguns estudantes e médicos também deveriam entender: médicos são pessoas que precisam ter uma vida saudável, o que inclui diversão, para poderem desempenhar corretamente seu papel na sociedade, caso deixem o autocuidado de lado, também irão prejudicar o seu trabalho.
Além do estresse da dedicação com outros e consigo mesmo, também sofrem deste poder cada vez que são privados de usá-lo, existem limites que salvam vidas e muitas vezes também tiram vidas. O primeiro limite é o de direito, que é necessário para balizar condutas e responsabilidades, mas na ânsia de ajudar às vezes podemos esquecer o bem maior do direito e sermos favoráveis ao risco, algumas vezes causando danos no lugar de ajudar. O segundo limite é o do saber fazer, nenhum médico é capaz de fazer/saber tudo, precisamos de outros profissionais, principalmente quando generalistas. O terceiro limite é o corpo do outro, até onde a prática médica vai ser realmente benéfica ao interferir na vida das pessoas, até onde se pode agir na vida das pessoas para seu próprio bem. O quarto limite é físico, faltam médicos e quando não faltam não adianta se não existir a estrutura para prestar o serviço ou sem que as pessoas possam ter acesso ao cuidado. O quinto limite são as vicissitudes da realidade, nem o total conhecimento e a melhor estrutura serão suficientes para cessar o sofrimento, existem muitas pessoas em situações desumanas que privam as pessoas do necessário para uma vida saudável, e inúmeras possibilidades de agravos físicos e mentais. Diante de tantas limitações, aquele ente poderoso, o médico, vai sofrer ao não poder ajudar ser não for capaz de entender a grande trama social à qual pertence.
Este poder ainda se configura em opressão, tanto saber sobre a vida pode levar o médico a ser colocado num pedestal em seu ambiente de trabalho formando uma hierarquia que impede a atuação integrada com outros profissionais.
Ainda se pode falar do risco de adoecimento por ser um profissional da saúde, mas acredito que este seja o menor dos males, quando lembramos que o médico também pode se tornar insensível diante de tantos flagelos e de tanto descuido com a vida.

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